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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Modo Subjuntivo



Às dezessete horas, o sol já estava morno. O céu começava a se manchar de um laranjado-magenta que sinalizava a proximidade do crepúsculo. Um fim de tarde que encerrava, com chave de ouro, aquele dia ensolarado de poucas nuvens capaz de dar vida nova a qualquer um que parasse um segundo para deslumbrar essa dádiva. Como se alguém parasse.

Apesar da barulhenta cidade, da multidão de pessoas e carros e de todos os problemas que existem. Naquele dia, alguns pássaros ousaram cantar e as árvores estavam em flores. Era um cenário típico do mais romântico dos contos de fadas. Como se alguém notasse.

Ela estava absorta em seu livro. Apaixonada pela filosofia clássica, se perdia platonicamente no seu mundo das idéias. Mesmo com toda bagunça e desordem, sublime e alheia, Minela estava completamente envolta em sua leitura. Sentada na praça principal daquela cidade tão importante, quase na posição de Lotus. Sentia, ou pensava sentir, uma certa repulsa por todos aqueles que passaram, em suas vidas insignificantes, mesquinhas e pequenas.

Ele era fruto do caos, Herbert, um entregador. Saindo da transportadora e indo em direção à moto, ele atravessa a praça com sete ou oito caixas na mão e alguns papeis na outra. Pensando em qual seria o melhor caminho para pegar, como evitar aquele terrível tráfego da região central, sair do olho do furação do jeito menos ruim. Sentia o estômago roncar, não havia almoçado por falta de tempo. Andava intrigado com como aquele trabalho era incrivelmente chato e em como ainda faltava tanto tempo para a sexta-feira: era quinta. Mas ainda sim, preferia ser do jeito que era do que a ser um “engomadinho” qualquer.

Ele passa em frente a ela. Sem mais, segue em frente e nem tem porque olhar para os lados. Já está a cerca de dois metros dela, quando volta. Para em frente ao banco, coloca as coisas que carregava ao lado dela.

Se dissesse "oi", provavelmente ela responderia "oi?", distraída com seu livro, ele repetiria "oi!" e os dois ririam daquela confusão tola. Talvez ele gostasse da voz dela e perguntasse o que lia e ela, por educação, claro, responderia perguntando se ele já havia lido. Com a possível negativa debochada, ela seria tentada a lhe convencer do quão importante é a filosofia e ele a ouviria só pelo prazer das sílabas saindo naquele timbre, frequência e altura tão próprios. Depois talvez ele até gostasse do assunto e lembrasse do livro que lera quando pequeno, sobre uma menina que recebia um estranho curso de filosofia pelos correios. Ele bem que pediria mais indicações e talvez ela aceitasse dar. Talvez até marcassem de se rever para que ela descobrisse como é "a emocionante vida sobre duas rodas". Quem sabe eles se dessem impressionantemente bem e nunca mais conseguissem conceber um dia sem a presença um do outro?

Numa quinta-feira, às 17:12, a uma pessoa totalmente desconhecida, em plena a praça principal? Herbert, evidentemente, amarra os tênis e continua seu caminho até a moto. Como se ele fosse mesmo dizer oi

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Sapatos de couro





- Nada não, só um resfriado.

...

Terça-feira, sete e trinta: Douglas acorda mecanicamente. Toma seu banho e veste-se exatamente como na segunda: Camisa social azul clara de mangas compridas, calças e paletó cinza escuro com risca de giz, gravata azul marinho com listras brancas guardada no bolso e sapato de couro negro italianos. Esses sapatos eram os melhores do mundo, já dizia seu falecido pai. Tão bons que não se podia experimentá-los antes de comprar. Segundo o velho artesão Rizzon, “uma vez que um pé entra no sapato e estica o couro, ele nunca mais volta a ser o mesmo”. Todas as peças de roupa estavam impecavelmente bem passadas e com caimento perfeito, ele era um retrato de solidez e confiabilidade. Dizem que não há nada melhor para um sub-gerente de processos executivos.

O café da manhã, inexoravelmente, era duas xícaras de café expresso com três gotas de adoçante e quatro torradas médias com uma camada fina de manteiga sem sal. Na última torrada, prazerosamente, permitia-se que a camada de manteiga fosse médio-fina e via naquele ato furtivo sua única alegria matinal. Lava todos os utensílios utilizados e, antes de sair, confere três vezes se cada janela e porta estão trancadas, muito embora more no 15º andar de um prédio em Nova Lima.

Antes de apertar o elevador, confere, em quatro passos, se não esquecia algo: Chaves da casa, chaves do carro, pasta e carteira. Mais uma vez: Chaves da casa, chaves do carro, pasta e carteira... Chaves da casa, chaves do carro, pasta e carteira. Agora sim. Desce até a garagem, abre o Toyota e dirigi-se para o centro.

Douglas detestava gravatas. Sentia como se estivesse sendo sufocado por algum assassino psicopata frio e silencioso. Deixava para vesti-las só quando estava dentro do elevador do escritório entre os 5º e 13º andares. Aquilo era um misto de sensações: sentia-se ousado por evitar o inimigo linguarudo até o fim e também sentia-se como um burro que caminhava conscientemente para o matadouro todos os dias.

Quando terminou de estacionar eram oito horas e três minutos, bastava atravessar a rua, muito embora só devesse bater o cartão daqui há cinqüenta e seis minutos e vinte segundos. Subiu do estacionamento e viu aquele mundo de sempre. Pessoas correndo sem olhar para os lados, celulares na orelha e milhões tons entre o cinza e o cinza escuro. Tão familiar.

Bastou um único passo, que azar, um relaxamento instantâneo e pronto! Um Office boy esbarra em Douglas que se desequilibra e, aos tropeços, vai em direção há uma enorme poça na sarjeta. Os sapatos. Numa manobra bizarra, sobrevoando carrinhos de bebê e apoiando-se em máquinas de construção, ele se desvia da poça. Desvia-se da poça e pisa, com os dois pés, no cimento fresco. Pobres sapatos italianos.

Douglas se contém, sente a fúria sozinho, não é culpa de ninguém ali, o office boy desastrado já estava longe. Para sua sorte, ou do destino, ao lado do prédio onde trabalhava havia uma renomada loja de roupas e sapatos e uma simpática atendente.

Ele entrou e confirmou, logo após o “bom dia” da mulher, o que acabara de pensar, sim, muito simpática. Não que fosse feia, desajeitada ou qualquer coisa do tipo, mas não dizia que era bonita ou atraente, era uma adorável e simpática atendente. Talita. Sem “H” ou qualquer outra firula, normal, morno.

- Outra Gucci Azul Royal, senhor Rizzon?

- Não Talita, hoje procuro por sapatos. Sapatos de couro negro italianos.

- Ah sim, claro. Ótima escolha, senhor Rizzon. Pegarei nossos modelos, um minuto.

E se foi ela sorrindo. Douglas não sabia o que, mas tinha alguma coisa intrigante naquela mulher. Devia ser o sorriso, sincero, onde já se viu uma coisa dessas? Pensava nisso e em outras dezenas de coisas do escritório, estava quase na vertigem da raiva e ainda nem havia colocado a maldita gravata, quando ouviu a música da loja. Legião Urbana. Era uma playlist completa dos brasilienses: Dia perfeito, Se fiquei esperando meu amor passar, Hoje a noite não tem luar, Que país é esse, Pais e Filhos, Quase sem querer. As lembranças da juventude borbulhavam na cabeça do velho, de 28 anos, Douglas Rizzon.

Mas foi numa música triste que ele se sentiu mais feliz. Quando percebeu que podia ser bom não ter quem cure a saudade que ele sentia de tudo que ainda não havia visto. Seus olhos se recaíram sobre uma blusa floral lilás. “Lilás, Douglas?” Ele pensou... sim, lilás.

- Aqui estão nossos mais novos modelos, senhor Rizzon.- Disse a atendente, ao voltar, e, finalmente, Douglas entendeu a graça que todos no ginásio viam em seu nome.

- Talita, acho vou ficar com esse. Posso lhe fazer duas perguntas?

Até onde ele seguiria com aquilo?

- Claro, senhor Rizzon.

- Você pode me chamar só de Douglas, por favor?

Ela enrubesceu e murmurou um “pois não” sem jeito.

- E... Vou para Vitória, quer ir comigo?

O rosto de Talita e seu uniforme vermelho pareciam ter a mesma cor.

- Como assim? Quando? – Ela perguntou confusa.

- Agora. Pegue aquela blusa floral para mim e venha...

- Não. – Respondeu firme.

Douglas engoliu seco. Não? Mas ele não podia deixar a poeira baixar, o ânimo passar, a adrenalina se diluir no sangue. Olhou para ela mais um segundo, continuou imutável. Ele pegou a camisa sozinho e seguiu pela rua.

- Me espera! – gritou ela da porta e saiu correndo – Você precisa ser mais persistente!

Sem sentido algum, rumaram para a estação de trem e pegaram o primeiro para o Espírito Santo. Dez horas de viagem, dois estranhos se tornaram grandes íntimos e, por coincidência ou conveniência, o filme preferido de ambos era Before Sunrise. Chegando no litoral, alugaram um carro barato e andaram por toda a cidade. Os pontos turísticos, as ruelas fora dos guias, centros históricos, a praia.

Quando anoiteceu, nenhum dos dois tinha mais dinheiro.

- Bom, ainda bem que compramos a passagem de ida e volta – Brincou Talita.

- É... Mas não temos lugar para dormir.

- Lugar temos, o carro. Mas você estava pensando em dormir?

Me abstenho de descrições mais detalhistas. Em vitória, Douglas e Talita viveram um universo paralelo momentâneo, um estalo bucólico em algum lugar entre uma segunda e uma quarta-feira.

No dia seguinte, Douglas perdeu a hora e saiu de casa, às pressas, oito e quarenta, seu café da manhã foi um fast food que lhe caiu peculiarmente mal, o trânsito estava um inferno, seu pneu furou e quando chegou ao prédio do escritório, a loja ao lado estava fechada para reformas. Subiu treze andares, se esqueceu da gravata. Parou, sentou-se no lugar de sempre e olhou para baixo: ainda vestia os sapatos italianos sujos de cimento. Cutucou o colega do lado:

- Cara, sabe o que aconteceu ontem?

- Sei. Nada. Esse emprego ainda me mata. – respondeu apático.

- Não. Comigo!

- Uai, você não veio ontem? Por quê?

Douglas ficou espantado e até ressentido por um instante, “nem sentiram minha falta?”, mas logo percebeu que não era com ele o problema. As pessoas à volta é que nunca saíam de seus mundinhos sufocantes. Ele não estava mais sufocado e isso não tinha nada a ver com a gravata. Riu lembrando-se do seu pai e respondeu:

...

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Anacronismo

Virou a esquina da Rua Saturtino automaticamente. O caminho da escola para casa era tão conhecido que Hélio Torres achou mesmo que poderia fazê-lo até de olhos fechados. E por que não?

Estimulado por aquela súbita aventura trivial, o jovem de 15 anos deixou as pálpebras caírem e continuou a caminhar. Um primeiro instante de insegurança e, sem perceber, ele havia diminuído seu passo. Aos poucos, porém, o temor foi passando, o garoto se sentiu mais à vontade percebendo que sabia exatamente o que fazer. Cada desnível, cada calçada, cada buraco a se saltar, os portões que sempre estavam abertos forçando uma passada rápida pela rua e ouviu, inclusive, o casal que todo dia fazia Cooper em uma das ruas perpendiculares e que Hélio gostava sempre de esperá-los passar. Tudo minuciosamente feito e com aquela sensação boa, do medo. Um medo enjaulado pelas grades da autoconfiança.

Passados sete minutos dessa odisséia infantil, Hélio parou segundos antes de ouvir seu nome sendo chamado por uma voz familiar: estava em frente ao portão de casa. Antes de entrar correndo pela passarela do jardim, girar a maçaneta da porta da frente e responder ao chamado da mãe, ele olhou em volta, orgulhoso de sua conquista. Talvez a maioria das pessoas pudesse pensar que aquilo tudo era uma grande bobagem mas, ele pensou, tinha sido, sem dúvidas, um grande feito.

Quando entrou em casa sentiu-se como se tivesse aberto a porta errada. Um estranho estranhamento, um incômodo sem explicação fez surgir rugas de incompreensão na testa do jovem garoto. Tudo estava diferente de algum jeito que Hélio não sabia dizer. Os mesmos móveis, nos mesmos lugares, mas, ainda sim, não pareciam ser os mesmos.

No canto esquerdo da sala ainda estava a velha poltrona marrom do pai, mas não era marrom e sim, bege. Com contornos diferentes. O aparelho de rádio que costumava ficar no centro da sala tinha dado lugar há uma grande janela negra que não dava para lugar algum.

A mãe chamou pela segunda vez, a grito parecia vir da sala de jantar ou da cozinha. Ele foi caminhando e vendo cada canto da casa onde sempre morou de um jeito novo, assustadoramente novo. Quando passou pelo arco da sala de jantar, teve um breve conforto, um suspiro de alívio: Sua mãe estava ao fundo, sentada à mesa. Hélio achou que ela fosse se levantar num salto, com aquele lindo sorriso tão típico e que fosse lhe explicar tudo. Olhou novamente e voltou a suar frio.
Hélio percebeu um ar diferente na senhora Torres, uma postura mais grave, um sentar ereto demais, gélido, roupas com cortes de ângulos retos e impessoais em tons de cinza escuro. Onde estavam os vestidos estampados com flores enormes? A mão que sempre apoiava o queixo meio desajeitadamente? Aquele jeito natural e tão apaixonado de trabalhar que mais lembrava o dele de brincar quando era menor? Ela se virou e, angustiado, ele percebeu que não havia como negar, era sua mãe, Carolina Torres.

Uma conversa breve sobre algo que Hélio não se preocupou em entender, estava muito ocupado esperando pelas explicações que não vieram. A aflição, o pesar e a desorientação continuaram iguais em seu coração até a hora de fazer o dever. Quando abriu seu caderno tudo piorou.

Escrito com sua própria letra, na primeira linha da última página rabiscada: 01/10/2009. 2009?
Hélio vasculhou todos os dias anteriores e confirmou toda aquela maluquice. Como ele havia viajado 60 anos no futuro assim? Sem nem mesmo forçar a mente, conseguia se lembrar nitidamente do dia anterior, 30/09/1949 e dos anteriores... de toda a vida que tivera até ali. E agora essa de 2009?

Mas não era como nos livros que ele havia lido ou como no programa de rádio do Passageiro do Tempo. O garoto não era um viajante solitário, um estranho num mundo futurístico. As pessoas em 2009 o conheciam e, de alguma forma, ele também as conhecia. Eram idênticos à sua família em 1949, melhor, quase idênticos.

De professora no grupo infantil, a mãe passou à gerente de Recursos Humanos de uma empresa. Seu pai não era mais datilógrafo, mas analista de sistemas. Para os outros era como se ele sempre estivesse ali, mas Hélio sabia que aquilo não estava certo.

Dias, meses, anos passaram e o extraordinário parecia não ter fim. O garoto começou a lembrar do que ouvia as pessoas falarem. A infância no interior de Minas nos últimos anos de 1990, as férias nos lençóis maranhenses em 2002, aquela vez que ficou internado por engolir uma pilha do controle remoto aos 3 anos em 1997... Cada vez menos ele entendia e mais precisava voltar para seu lugar... Que lugar?

Não só as lembranças que não eram desse século, o que ele queria, o que pensava, pelo que lutava, com o que se importava, Hélio era um relógio de corda num mundo de poucos relojoeiros... Porém, só ele parecia perceber.

Quanta autoconfiança naquele dia sem ver, quanta falta agora.

Chegou a pensar que tudo poderia não ter passado de um sonho ou de um delírio... Essa coisa de infância em 1940... Então? Filosofia? Biologia? Sociologia? Psicologia? Eu sei que você está esperando uma resposta, leitor, mas nem sempre ela vem ou às vezes está tão exposta que dizê-la seria o cúmulo do óbvio.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Abrindo os olhos

O ônibus parou novamente e os passageiros começaram a subir. Um ou outro cumprimento, na maioria das vezes uma indiferença mútua. Ele não se importava mais, simplesmente pegava o dinheiro ou ajudava a passar o cartão. Os que deveriam descer desceram, os que deveriam subir já ocupavam seus lugares. Tudo parecia certo e ele tocou com a moeda no metal, para avisar seu companheiro de trabalho. Tudo parecia certo.

Porém, teve algo especial no barulho simples do metal contra metal. O som oriundo do confronto direto daqueles materiais impassíveis, mostrou o quanto as aparências enganam. O trocador havia percebido onde estava e o quanto aquilo era estranho.


...

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O que você vê?

A luz do sol refletia os tons em cinza da cidade. Em um monótono dia de semana a visão superior do centro era um ninho empestado de cobras. Cobras de terno e gravata, um homem atrás do outro, se movimentando de modo quase mecânico. Corpos em piloto automático.

Numa imagem, talvez, não tão pessimista, eram como uma mata tropical: densa, escura e sufocante. O fluir das pessoas lembrava uma brisa enganosa e sem pretensão. Exatamente como aquelas que insistem em correr entre os enlutados de um velório qualquer.

Duas pessoas [fortuitamente?] se esbararam e a harmonia blasè deixou de existir. Um homem de terno de risca de giz sente a falta do relógio de pulso. Se vira a tempo de ver uma mulher em trapos correr sem olhar para trás.

Ela dava tudo de si, abrindo caminho entra as pessoas. Sem hesitar, como um legítimo predador, o homem inicia a perseguição para conseguir pegar mulher ou o Rolex...

Ele: "Maldita mulher! Está fugindo com uma casa nas mãos e nem deve se dar conta! Esses malditos marginais! Quando eu a pegar, será tarde demais para chamar uma ambulância”

Ela: “Que otário! Deu bobeira perdeu, trouxa! Finalmente consegui alguma coisa de valor! Teremos o que comer por mais de um mês... Ele acha que conseguirá me pegar? Nunca!”

“Folgada... ao invés de procurar um emprego... que tenho EU a ver com a pobreza dessa merda de mulher? Por que um trabalhador digno e honroso como sou tem que pagar pelos erros desse país?”

“Todo mundo me olhando com medo, nojo... que estranho... sinto aversão a mim mesma, mas há uma certo orgulho... uma certa sensação de poder...”

“Claro que existe a possibilidade de ela estar realmente precisando... merda, como é rápida... poxa, mas eu trabalhei para comprar... bom, na verdade, ganhei.. que importa? É minha PROPRIEDADE, que direito essa indigente tem sobre MEUS bens?”

“Nossa... ele continua me seguindo? Deve fazer academia, praticar esporte e essas coisas todas de grã-fino... é hora de comparar.. quem está melhor preparado? O que corre na esteira ou da fome? Talvez ele precise do relógio... deve significar alguma coisa.... é, significa! Significa comida pros meus!”

“Estou ficando cansado... essa merda de relógio foi mesmo presente da interesseira da minha irmã... presente não, estorção...”

“Ele continua vindo...Por quê tudo tem que ser tão difícil? Eis o legado que deixarei aos meus filhos... 'como roubar eficientemente'...”

“Há uns 20 anos, provavelmente, eu daria um belo soco no estômago de um tipo como eu sou hoje... rsrs.... igualdade social, quanta bobagem.... sonhei um tempo, depois a gente cresce... a vida real é essa, malditos marginais! Sempre me frustrava por fazer menos do que gostaria... engraçado, é como se eu me perseguisse agora...a maior chance que já tive de fazer algo como gostaria de ter feito naqueles tempos...”

“Programas sociais? Aquela tal de assistente do governo, passa lá na praça, vê a gente, dá um oi e vai embora... nossa, o que seria de mim sem eles... um gole de leite quente pra calar uma barriga completamente vazia... nada muda... eles serão como eu sou hoje... talvez piores...”

“Nunca tive chances? Ou nunca aproveitei as que tive?”

“Tudo está mesmo assim tão determinado?”

Talvez porque o fôlego havia acabado ou por outra razão qualquer, não importa, mas ambos diminuíram o passo. Pararam a cerca de dois metros um do outro. Quando ela se virou, finalmente, se viram nitidamente. Os dois igualmente ofegantes, de bocas entreabertas e rostos suados. O som da respiração profunda rompia o silêncio entre eles, não a tensão.

Depois de alguns segundos parados, ela ousou se mover. Lentamente, deixou o relógio no chão e recuou três passos, sem tirar os olhos do homem de terno, esperando qualquer agressão. Que não veio.

Ele observou tudo e não moveu um músculo.

O relógio ficou precisamente entre os dois. Eles se olhavam e observavam, com desprezo, aquilo no chão. Era como se repudiassem àquele espelho da alma, receosos de tornarem a ver a hipocrisia, a arrogância, a prepotência, o ódio, a inveja, a avareza e todo o resto...

Voltaram a se olhar nos olhos. Não havia mais tensão no silêncio, apenas cumplicidade. Deram-se as costas e seguiram seus caminhos.

E o relógio? Ficou lá, intocável, eternamente, como um emblema, para que ninguém jamais se esquecesse do que ocorreu naquela terça-feira? Não. Nem sete segundos se passaram e alguém pegou o Rolex para si.

sábado, 29 de agosto de 2009

Leitor compulsivo

Comecei a ler com uns 4 anos de idade. Sozinho, com revistinhas da Turma da Mônica. É óbvio que eu não me lembro dessa história, mas como todo mundo me conta isso, deve ser verdade. Foi desde essa época que eu adquiri um péssimo hábito: virei um leitor compulsivo.

Sim, é realmente um péssimo hábito. Imagina você não poder sair de casa sem estar acompanhado de um livro ou não conseguir dormir sem um livro na sua cabeceira. Quando você olha para o lado e vê que tem pelo menos cinco livros esperando para serem lidos ao mesmo tempo, você percebe que está passando dos limites.

E é simplesmente impossível deixar qualquer um eles de lado. Aliás, eles são a única coisa que você não consegue deixar de lado. Você passa a não ler mais os textos da faculdade, não come, não sai com os amigos, não toma banho. Enfim, você perde a sua vida por causa deles.

É por isso que eu estou lançando a campanha “Por um uso mais consciente dos livros”. Tá, o nome ainda é estranho, mas ele será trabalhado com o tempo. O importante é que eu estou lançando essa campanha para mostrar as pessoas o malefício do uso incontrolado dos livros.

Ler vários livros de uma vez faz com que você confunda as histórias. E isso é um fato confirmado cientificamente. Só para dar um exemplo idiota, mas seria como se você começasse a ler o conto da Chapeuzinho Vermelho e, quando ela chegasse na casa da vovó, a velhinha estaria de boa, papeando com sua comadre Dona Benta, do Sítio do Pica Pau Amarelo.

E olha que isso é só um detalhe pequeno, principalmente porque juntou duas velhinhas bem simpáticas. Mas a situação é muito mais grave. Além de se misturarem, as histórias começam a ganhar vida e fazer parte do seu dia a dia. É muito perigoso quando isso acontece. Significa que você realmente precisa de um tratamento psicológico.

Fica a dica para as pessoas que, como eu, simplesmente não conseguem se controlar na frente de livros. Deixa eu sair, porque Miranda Priestly está me esperando na minha cama... espero ter uma noite agradável com aquele diabo vestido em Prada.

sábado, 25 de julho de 2009

Viralmente conflituoso

Cérebro: Faz cinco dias que você não faz nada, seu preguiçoso. Levanta dessa cama!
Kikazaru: Você sabia que eu viajei?
Cérebro: E isso lá é desculpa?
Kikazaru: Quando você volta com suspeita de gripe suína sim...
Garganta: É, e eu posso confirmar tudo isso. Quem tá inflamada até agora sou eu...
Kikazaru: Viu, é por isso que eu não tô com ânimo nenhum.
Cérebro: Mas espera aí, eu que sei se você está animado ou não. Se eu tô pronto, você também tá. Além do mais, hoje é dia de escrever pro 3 bananas...
Kikazaru: Ah nem, hoje já é sábado? Que preguiça mortal disso. Eu mal entrei de férias e ainda tenho coisas para fazer.
Mão: Eu não vou movimentar nem um dedo para escrever nada, ouviu cérebro?
Cérebro: Alguém vai respeitar minha autoridade aqui ou vou ter que mandar todo mundo ficar quieto?
Kikazaru: Depende, você já tem o tema do post de hoje?
Cérebro: Óbvio, a gente vai falar da teoria das cordas e das teorias matemáticas envoltas no processo de concepção da teoria.
Kikazaru: Ai, que preguiça
Corpo inteiro: Com o tanto de remédios que você mandou a gente tomar, você pode até mandar a gente levantar. Só vai faltar força pra isso...
Cérebro: Eu não mandei ninguém se entupir de remédios. Os sete comprimidos que vocês tomaram foram devidamente calculados...
Kikazaru: Sim, devidamente calculados pra gente desm...

Sim... Kikazaru passou três dias em um estado lastimável, vivendo em outro mundo. Neste mundo, remédios voavam por todas as partes e ele não tinha consciência de muita coisa. Portanto ele espera estar de volta à realidade amanhã de manhã.

sábado, 4 de julho de 2009

Maldito word em branco

Às vezes abrir o Word é um tormento. Você sabe que tem que escrever alguma coisa, mas essa alguma coisa simplesmente não sai. É simples assim. As palavras teimam em não te obedecer, seus dedos pairam preguiçosos no teclado e sua cabeça começa a divagar e se distrair com um cavalinho de pelúcia que você acabou de ver que está cheio de poeira no seu armário.

E, de repente, esse cavalinho começa a parecer mais interessante do que ele nunca pareceu. Você passa pelo menos uma hora olhando para aquele bichinho e finalmente se lembra que tem que voltar e escrever alguma coisa. Quando você olha de volta para a tela, uma página completamente em branco te encara.

Milhões de coisas começam a passar pela sua cabeça nesse momento... sobre o que escrever, como vai ser o início do texto, como ele vai acabar, o que você vai comer e porque você nunca tinha reparado naquele cavalinho antes.

Quando você percebe, o tempo que você tinha para escrever aquilo já caiu pela metade. Desespero, angústia, vontade de tomar café. É claro que a última vence e você vai à cozinha se servir. No meio do caminho, você resolve que é uma boa parar e comer alguns biscoitos para acompanhar o café. E lembra que tem um vídeo ótimo no youtube que você ainda não assistiu.

Você pega o cavalinho, coloca ele na frente do computador e os dois começam a assistir ao vídeo, regados a muito café e biscoito. O tempo continua passando e a página ainda em branco. Em tão você decide tomar vergonha na cara e escrever alguma coisa. Um parágrafo, dois... era para ter cerca de 4000 caracteres e só tem 500? Sem problema...

Você olha para o cavalinho e ele te encoraja a seguir em frente. Você escreve, escreve e escreve. 1000 caracteres ainda... hora de ligar uma música para distrair a cabeça. Deixar no random não é uma opção. Tem muita música ali que você não gosta mais. Então é hora de montar uma playlist legal para ficar tocando enquanto você escreve.

Enquanto isso o tempo passa... novamente você senta na cadeira e olha para aqueles 2342 caracteres já escritos e pensa nos 30 minutos que tem para acabar aquilo. Desespero? Nenhum. Você tem total controle sobre sua enrolação. O cavalinho te dá um último olhar ameaçador e você começa. 25 minutos depois o texto está pronto e revisado. Sem problemas. E dentro do prazo... ninguém pode te acusar de ter deixado para a última hora.

Moral da história: Nenhuma. Isso é apenas um texto completamente avulso...

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O revés do clichê



- oi!

Ele ficou impressionado com o quanto duas letras, se ditas por ela daquela forma tão única, podiam dizer tanto.

Não fazia muito tempo, Lucas e Mariana se viam regularmente. À primeira vista era um casal típico. Ele, morador da maior cidade do país, advogado e escritor insipiente que morava sozinho há seis anos. Quando o perguntavam quem era, apesar de toda a correria do cotidiano, sempre dizia: “Sou um amante das coisas simples”. Mariana tinha todo o ar de uma jovem mulher do interior, sorriso discreto, filha de um político muito influente na pequena cidade onde vivia, baixa estatura, suas medidas pareciam estrategicamente confirmar o tipo frágil e romântico da clássica donzela que espera na janela. Não foram uma nem duas vezes que perguntaram como aquele relacionamento estava dando certo entre pessoas tão diferentes, ela tinha a resposta na ponta da língua: “Os opostos se atraem”.

Mas isso era só a primeira fase daquela história. Sentados na mesa do pequeno café, mais um momento de silêncio acontecia. Nesses instantes, não raros, nenhum dos dois dizia nada por algum tempo. Lucas era muito observador, algo maravilhoso, dizia Mariana, mas que às vezes a deixava um pouco insegura.

- Diz alguma coisa... – Ousou pedir a garota, com um sorriso leve nos lábios – Mas não vale “alguma coisa”... he he

- He he... Tudo bem, “Por que você se preocupa com o som da minha voz, se é o som do meu coração que devíeis ouvir?” Tristão e Isolda, citado em Romance. Ótimo filme do Guel Arraes – Disse Lucas.

A partir daí, começaram a falar de cinema, mas os pensamentos que se repetiam na mente do rapaz não pararam de fluir. A cada minuto ele percebia que não estava conversando só com uma garotinha do interior, que Mariana tinha força e espírito de liderança muito maiores do que os da maioria dos governantes. Lucas percebia que, para além da beleza que saltava aos olhos de qualquer um que a visse, a “filha do coronel” era uma mulher completamente conectada com os problemas de seu país e do mundo. Uma pessoa altruísta que se preocupava com as pessoas que moravam dentro e fora dos limites da fazenda de seus pais. Apesar de preservar toda a feminilidade interiorana, ela tinha independência e perseverança. Mariana era muito religiosa, não assistia a tantos filmes e odiava Coca-cola.

Lucas também ai muito além do estereótipo. Pra começar, ele não era tão da capital assim, sua família vinha do interior e ele vivera muito tempo longe das metrópoles. Fora seu aspecto frenético do dia a dia, sonhava sempre com um momento fútil debaixo de uma árvore, para pensar e escrever, de preferência acompanhado. Embora preferisse o humor bem elaborado e filmes de trama complexa, também ria e contava piadas bobas feitas para crianças. Lucas ouvia muita música, nunca abotoava o último botão da camisa e insistia em deixar a pasta dental destampada.

Eles não eram totalmente diferentes e muito menos exatamente iguais. Nem óleo e água, nem gêmeos siameses. Concordavam em tantas coisas que chegava a ser espantoso. Porém, pensavam em tantas outras que se conversassem sobre se surpreenderiam com a posição do outro. Mas é isso que solidificava cada vez mais a relação entre os dois, as diferenças. Como a água do mar escorrendo pela areia da praia, os dois se entrelaçam, peculiarmente, um complementa o outro. Se conhecendo, eles se completam.

Os dois sabiam disso, às vezes vinha o medo, às vezes era um estímulo. O fato é que, da próxima vez que alguém perguntar sobre como se dão tão bem assim, talvez, eles não se classifiquem mais como opostos, mas digam simplesmente: “Os complexos se complementam”.



P.S.: Me desculpem pelo atraso. Devia ter postado ontem, mas foi meu último dia de aulas e não PODIA fazer nada no mesmo dia mais... hehehe.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Palavras de balcão

Não havia brisa que desce cabo daquele calor abafado. Apesar das altas horas, uma e quarenta da madrugada, o ar não circulava e o suor escorria pelo rosto das pessoas.

Num pequeno bar de subúrbio, um garçom cochilava no balcão. O lugar estava vazio exceto por um grupo boêmio de moscas que sempre freqüentava o local e se aproveitava dos restos de bebida e comida deixados em cima das mesas. E exceto, também, por um homem recostado na porta.

Um tipo comum, cabelos castanhos e grisalhos, altura mediana e um olhar perdido, que era o menor dos sinais que o álcool imprimira nele. O cheiro que exalava podia ser percebido há metros e seu andar em ziguezague comprovava que os treze copos cheios que bebera, definitivamente, não continham água.

Hesitante, o anônimo dava um passo adentro do bar e outro para fora. Há trinta minutos, sempre o mesmo movimento: encostava-se à pilastra da entrada, respirava fundo, entrava um passo, vacilava, pensava e voltava dois, parando fora do botequim. No balcão, o atendente já havia desistido de perguntar, todas as sete vezes que tentou foi ignorado.

Em uma de suas tentativas, o indigente acabou conseguindo. Às pressas, chegou ao garçom trocando as pernas:

- Me vê um ron, jovem. Seco. – Bradou firme o bêbado.

O garçom se espantou com a súbita compostura do idoso, se espantou tanto que acabou derramando a dose em cima do freguês.

- Desculpe-me, senhor. Foi um acidente.

O bebum olhou o trapo que vestia, agora molhado. E nem uma ruga de incômodo lhe surgiu. Usando da sabedoria do povo, aquela que se aprende na vida, na rua, ele disse:

- Não há de ser nada, meu caro. O que será isso daqui a dez anos? Não há de ser nada.

…

Dois olhares entediados se encontram numa festa de aparências. Duas bocas se abrem em sorrisos sinceros.

Depois de dez anos,

As mesmas bocas se juntam, selando um compromisso eterno.

…

Inconsequentemente, um homem dispara contra a mulher que resistiu ao assalto.

Dez anos, contados dia a dia, passados,

A porta do presídio se fecha atrás de quem pagou sua dívida.

…

Num lugar escondido de todos, um grupo de amigos se diverte. Um jovem decide saciar sua curiosidade perigosa.

Após dez anos,

Dá entrada no Hospital Central outra vítima de overdose que durou muito.

…

No “melhor aniversário de todos os tempos”, um garotinho ganha o “melhor presente do mundo”: um cachorro.

Dez anos depois,

As lambidas de um velho cão fazem cócegas na cabeça do jovem aprovado no vestibular de medicina veterinária.

…

Em 1976, uma garota sonhadora entrega panfletos libertários pelo centro da cidade. Foragida de quem não acredita na Igualdade, ignora a Liberdade e zomba da Fraternidade.

Depois de uma longa década,

Ela, menos jovem e mais jovial, comemora a saída do último homem a ditar a dor.

…

De volta ao boteco, o garçom desdenha:

- Que seja, velho. Só estou tentando ser educado. Outro ron? São mais R$ 2,50.

sábado, 6 de junho de 2009

Uma paixão narrativa

Eu tinha o grande sonho de ser escritor. Desde pequeno me disseram para começar a exercitar, escrever diários, relatos de viagens... essas coisas bobinhas. Foi o que fiz. E comecei a tomar gosto pela coisa. Tomei um gosto ainda maior pelas narrativas. Ah, o fantástico mundo das histórias, repletas de personagens como só elas sabem construir, com uma trama envolvente e um final geralmente surpreendente.

Era o que eu mais gostava de escrever. E, na minha época, não houve ninguém melhor que eu. Escrevi best-sellers renomados no mundo inteiro. Fui o autor que permaneceu mais tempo no topo da lista dos mais vendidos. Quatro dos meus livros foram transformados em filmes que chegaram a concorrer ao Oscar de melhor longa e de melhor roteiro.

Vivia uma vida bem tranqüila. Escrevia por amor, pela simples paixão por aquelas palavras que surgiam suavemente, mesmo sem serem chamadas. Eu tinha quase um ano para produzir um novo material. E me divertia com isso durante os 365 dias.

Foi no meio de um trabalho que uma coisa me chegou de repente. Ela veio, tímida, como quem não quer nada. Veio entrando na minha vida aos pouquinhos e eu fui gostando. Sentia prazer toda vez que ela vinha, devagarzinho, e começava a deslizar suavemente pelos meus dedos.

Meus momentos com ela eram curtos, mas altamente reconfortantes. Não havia a necessidade de firmar um compromisso como com as longas narrativas. Ela me permitia falar de tudo, das coisas que estavam acontecendo no mundo, das banalidades. Deixava-me exibir meu humor ácido, meu sarcasmo sempre que possível. Ela vinha, deixava sua dádiva e ia embora. Simples assim. Fui, cada vez mais, me apaixonando por ela.

Nem sei o que tô pensando agora. Trai. Mas gostei muito. Foi duro quando tive que contar para a minha amada narrativa que queria dar um tempo. Ela não reagiu muito bem, tínhamos uma história ainda inacabada (que hoje reside nas pastas mais escondidas do meu notebook).

Agora só escrevo crônicas. E, cá entre nós, estou me divertindo muito mais...

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Razão de ser



A diligência não precisou parar para que ele saltasse. Com um grito de gratidão, se despediu do jovem rapaz comandando os cavalos:

- Adeus, não há meios de pagar por sua ajuda, garoto. – Disse o viajante para a carruagem que se afastava debaixo de uma garoa insistente.

- Disponha. Desejo-lhe sorte em sua empreitada, forasteiro.

Jean achou estranho ser chamado de forasteiro. Em tantos anos nunca havia se importado, mas naquele momento a palavra entrou dura pelos ouvidos dele. O “forasteiro” era um trovador. Com cerca de trinta anos de idade, mas com espírito de vinte, o artista viajava de cidade em cidade tocando o que, no mundo, lhe tocasse.

Não era sua primeira vez naquele pequeno vilarejo. Apesar das grandes diferenças pelas quais o lugar havia passado, tudo era muito familiar. Algumas casas a mais, novos moinhos, algumas oficinas recentes e o cheiro do esgoto a céu aberto parecia ainda mais forte. Porém, era o único pedaço da Terra onde ele não se sentia um estrangeiro.

A igreja ainda estava no mesmo lugar, a sede administrativa e a delegacia também. Alguns tradicionais artesãos, como sempre, vendiam seus produtos em frente os mesmos barracos surrados, onde um pedaço de couro seco protegia os utensílios da água fria que caía do céu. A diferença estava no semblante dos vendedores. Os reconhecidos por Jean tinham uma gravidade mais profunda nos olhos. Aquelas pessoas desconfiadas e mudas em nada se assemelhavam aos antigos olhos vivos e às vozes estridentes que preenchiam o ar da rua principal tempos atrás

Mas não só os habitantes tinham mudado, Jean, inexoravelmente, também era outro. Seu rosto mostrava bem a distância percorrida desde sua última vez nos becos estreitos e lamacentos do lugarejo. A respiração ofegante denunciava que o velho violão nas costas parecia mais pesado a cada passo. O único vestígio de bagagem, uma trouxa feita de lá, fazia o corpo do Trovador debandar com o peso, dando-lhe um aspecto debilitado e cansado.

Um garoto que brincava na chuva passou correndo. Sem ver, chocou-se com o artista e a trouxa de roupas caiu no chão se desfazendo sobre uma poça d’água. Jean viu subitamente o sangue se esvair do rosto do pequeno menino em sua frente, o medo era quase tocável. Houve um momento de silêncio. A submissão daquele menino aterrorizou o viajante e ele percebeu que a cidade havia mesmo mudado.

- Não se preocupe, garoto. Foi um acidente, uma brincadeira. – o músico-poeta abaixou-se, apanhou um pouco de água nas mãos e atirou no garoto que sorriu espantado – Pronto, agora estamos quites!

Absolutamente, havia algo errado. As pessoas estavam trancadas em casa, as crianças "sorriam". Crianças não sorriem, elas gargalham, gritam, jorram alegria. Sorrisos contidos são para os adultos amargurados pela vida. Um andante distraído podia culpar a chuva fina que caía, mas Jean sabia: não tinha nada a ver com aquilo. A natureza não tem humor, sempre é o Homem quem enxerga o que quer ver na nevasca ou no dia de sol.

O Trovador estava na cidade novamente por uma busca individual. Todo artista têm de ir aonde o povo está. E chega o dia de ir aonde o seu povo está, seus amigos fieis, sua família. Após décadas de peregrinação sem destino, caminhando, vendo, cavalgando, sentindo, navegando, compartilhando, festejando e vivendo, ele sabia que precisava voltar. De algum jeito, ele não se sentia legal.

Porém, além dessa tortura particular, o que lhe angustiava mais era a atmosfera pesada da cidadezinha. Todas aquelas pessoas abatidas e sorumbáticas fizeram Jean mudar seus objetivos.

A chuva, convenientemente, diminuiu ao ponto de se tornar quase imperceptível. Ele foi até a praça principal e se acomodou sobre um tronco de árvore caído, usado como banco.

Embora as saudades de sua mãe lhe ardessem no peito... Embora, mesmo depois de infinitos meses, o cheiro forte de fumo tão prórprio do pai estivesse claro na memória como água limpa… Embora quisesse, melhor, necessitasse ver seus irmãos mais novos o mais rápido possível… Jean era trovador. O Trovador é o artista do cotidiano e sua meta de vida é melhorar o dia de estranhos vistos aleatoriamente. Por isso tudo, com humor e paixão, tirou seu violão das costas e começou a cantar e declamar poemas para os que passavam.



P.S.: A profisão que eu gostaria de ter se tivesse nascido há uns 1000 anos.

P.S.2: Obrigado aos amigos que me ajudaram a escrever: Mateus Mancha, Nogueira, Gustavo, Samuel e demais. Ah, e muito obrigado Milton Nascimento por ser tão genial e ter composto essa obra prima: Nos bailes da vida.

terça-feira, 2 de junho de 2009

O Inusitado

O humor de uma crônica, como é bem sabido por muitos, consiste no inusitado. No meio de uma cena corriqueira, ou que fuja à rotina mas mesmo assim se encaixe nos padrões do normal, algo deve acontecer que tome o leitor, e talvez as personagens também, completamente por surpresa.

Para fazer uma crônica engraçada, então, procuremos uma situação corriqueira. Talvez, uma família de classe média. Saõ as seis, todos voltando de suas respectivas atividades. Agora, coloquemos uma supresa, não tão chocante, mas que pode adicionar um pouco de humor ao assunto. Por que não, a mulher, tradicional dona de casa, estava com o amante e perdeu a noção do tempo. Entra em pánico quando ouve a porta da frente abrindo e as vozes do marido e as crianças.

Ainda falta algo mais... Ah, sim. O amante é colega do marido, e hoje alegou estar gripado e faltou (ele também é casado). Assim como a mulher, entra em pânico e, como todo amante nessas horas, corre para o armário, semi nu. A mulher procede a pegar rápidamente as roupas e jogá-las dentro do móvel, que fecha no segundo exato em que o marido entra no quarto.

- Boa noite, querido! - diz, fingindo que se preparava para tomar um banho.

- Oi, amor. Como foi o dia? - pergunta ele, sentando na cama. Reparando que está desfeita, pergunta - Cochilou um pouco?

- É, eu estava muito cansada - responde ela, terminando de tirar a roupa e entrando no chuveiro - Como foi o dia? - repete.

Repare, leitor, que é insitindo na pergunta que ela está nos levando ao ponto crucial da história, onde acontecerá o humor.

- O João faltou - responde o marido, referindo-se ao sócio - Parece que está com gripe. E ele não podia ter escolhido um dia melhor.

A mulher tira a cabeça do chuveiro.

- Foi tão ruim assim?

- Não estou sendo irônico - responde o marido, que já tirou os sapatos e agora afrouxa a gravata - Eu me saí bastante bem com o chefe hoje. Lembra outro dia quando te falei que esqueci de enviar um dos contratos para um cliente? O chefe veio me xingar hoje, mas conveci ele de que tinha sido culpa do João.

A mulher quase escorrega no chuveiro. Ouve-se um barulho abafado no armário.

- Querido, achei que fosse amigo do Jõao - diz ela, massageando nervosamente o cabelo.

- Sabe, a nossa relação nem é mais a mesma que antes. Ele ficou muito desligado de todos, não sei porquê. Até se diz por aí que a Fernanda - a mulher dele, leitor - está tendo um caso com alguém da galeria dela.

A mulher deixa cair o xampu. O armário treme novamente.

- Mas ainda nem falei tudo - continua o marido, desabotoando a camisa - O chefe acreditou em mim e começou a criticar o Jõao. Acabou convencido que ia ter que demitir ele e passar a gerencia da área só para mim. Eu vou ganhar o dobro!

A mulher deixa condicionador cítrico entrar no olho. Um cabide quebra dentro do armário.

- Agora tudo vai mudar, querida! As crianças por fim vão ter mais coisas, você vai poder ficar mais arrumada, eu vou comprar aquele carro que te mostrei outro dia... - enumera o marido, reflexivo, enquanto tira as calças e se dirige ao armário.

A mulher, que novamente tinha tirado a cabeça do chuveiro, vê a cena e desespera.

- Querido, não abra o...!

Tarde demais. Um frente ao outro, de cuecas, os dois homens se encaram calados.

O que acontece agora, você se pergunta? O única coisa lógica que poderia acontecer no final desta crônica: O marido afasta um pouco para João sair do armário, com as roupas na mão, e deixar a casa.