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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Livro de mulherzinha que nada!

Pelo menos, não SÓ de mulherzinha.

Imagine comigo: Festa de fim de ano no trabalho. Os colegas todos reunidos num estranho ambiente de “descontração, mas nem tanto”. Alguns salgadinhos e nenhuma bebida alcoólica. Aquele típico amigo-oculto em que sempre se corre o grande risco de tirar alguém que você, no máximo, cumprimenta levantando as sobrancelhas durante o ano todo.

- Gente, gente...Calma, vamos começar a brincadeira – Diz o chefe da redação. Que, claro, começa. – Meu amigo-oculto é...

Depois de algum suspense e de um ou outra interna do trabalho, descobrimos o felizardo: eu. Como de costume, deixo meu prato de bolo na mesa, vou até o meio da roda, volto para colocar no prato a colher que ainda estava na minha boca, cumprimento o chefe, trocamos abraços e pego meu presente. Já ia deixar de lado – lembrando que a possibilidade de ganhar algo, no mínimo, inusitado, é alta nesse tipo de amigo-oculto – queria guardar pra abrir em casa. Mas meus colegas de redação e das ilhas de edição – pensando exatamente o mesmo que eu, claro – começaram o coro: “Abre! Abre! Abre!”.

Quando abri, senti uma mistura de “que presente engraçado!” com “isso é gozação com minha cara?” e um pouco de “sério que eu pareço precisar tanto de uma coisa assim?”. O dito cujo era um livro chamado Mulheres, por que será que elas...? da escritora e jornalista mineira Leila Ferreira. Depois de algum tempo sem reação, me lembrei de onde estava, agradeci ao chefe, entreguei meu presente para uma colega e seguimos a brincadeira.


Na hora levei tudo muito na brincadeira. A sensação de “que presente engraçado!” e minha queda pelo humor non-sense me fizeram gostar muito da situação. Assim, não podia deixar de contar o caso para meus colegas. Um dos primeiros para quem contei, grande amigo nosso (sim, vocês o conhecem), comentou: - Hum. Um livro de mulherzinha! Estou na minha fase “livros de mulherzinha”. Depois quero emprestado.

Calma, antes de eu dizer com todas as letras o título desse post novamente, vamos à questão principal: O que é um “livro de mulherzinha?” Pra mim, livro de mulherzinha é algum fútil, bobo, que trata do universo feminino de um jeito infantilóide e romanesco [ponto] Sabrina e coisas do tipo. Se assim for, definitivamente, Leila Ferreira, nessa obra, não fez um livro assim.

Não vou fazer crítica literária aqui por dois motivos bem simples. Um, eu não tenho capacidade nem repertório suficiente para tal (bem que queria ter). E, além disso, esse livro me faz querer falar de outras coisas interessantes que não sua estrutura narrativa, as referências, o trabalho com a linguagem, as metáforas e etc. Fiquem aí com minhas impressões de leitura:

Quando peguei, depois do alvoroço da festa e de rir bastante da situação, no livro de capa verde e vermelha publicado pela editora globo, a primeira coisa que fiz foi dar uma olhada geral. Depois de folhear por dentro (mania que repito, por costume, desde que lia os livros da coleção Vagalume) e constatar, óbvio, que não havia gravuras, li o texto da contra-capa. Abri, li a orelha do começo e, na orelha do fim, vi a foto da escritora.

Leila está posando de pé, enquadrada quase de corpo todo (corte abaixo do joelho), calças jeans, um casaco fino azul marinho e uma simples blusa branca por baixo. De braços cruzados e sorriso aberto, ostenta cabelos ruivos-escuros curtos num corte moderno e uma maquiagem leve. Se foi pensado ou não, vai saber, mas essa foto é o resumo perfeito da obra: jovial, descontraída, irreverente e agradável.

Lendo o livro, me senti como que se estivesse sapeando a TV e parasse num programa a la Programa Livre só de mulheres. Se preferir, foi como se um grande grupo de meninas, jovens, adultas e senhoras na “melhor idade” estivessem sentadas num bar conversando naturalmente. Eu era um mosquito voando desapercebido por elas. Enquanto assistia, elas falavam abertamente.

Eu era o único homem no meio daquele tanto de mulher batendo papo e contando causos, uma experiência hilária! O único?! Minto. Durante todo o livro, se não me engano, aparecem três outros homens com direito à fala: Um gay, um baiano que reclama não conseguir dar cinco (isso mesmo que você está pensando) e um pobre coitado de 25 anos que leva “o” pé na bunda porque gosta de roupão de seda e leite quente.

Já ouviram falar de livro que se lê de uma vez só? Pois esse é quase um da espécie. Abri para ler durante minha viagem de BH para Luz. Chegando aqui, parei, cumprimentei meus pais e voltei a ler até terminar. Devorei as suas 242 páginas em cerca de 7 horas: um livro que se lê (no meu caso) de duas vezes só.

O jeito que a autora escreve é fluente e te conduz como se tudo não passasse, com o perdão da repetição, de uma conversa distraída. Aparentemente, o livro foi construído com base em uma série de entrevistas. Mas a Leila Ferreira consegue driblar bem essa estrutura que poderia ser um gesso, ligando os depoimentos com “Fulana que é amiga de Cicrana...” “Beltrana concorda com a outra e emenda...” Claro que parte do mérito está também na edição dos casos que são muito engraçados.

Sem dúvida que a obra tem lá seus defeitos. Leila parece se dirigir para um público bem específico. As mulheres referidas na capa parecem ser hilariantemente consumistas, ultra-vaidosas, inseguras, perfeccionistas, ninfomaníacas, submissas e desesperadas. Em alguns momentos, raros, a narrativa chega a ficar um pouco saudosista e com uma pequena ponta de remorso, ou “culpa” por parte da própria autora (rs). Mas, do mesmo modo que o homem (rude, frio, esquecido, arrogante e objeto) é um estereotipo, acho que as mulheres de Leila também devem ser. Ninguém é exatamente o que está escrito ali, apesar de todos terem maior ou menor familiaridade com cada caso contado. A própria autora parece construir, no fundo, uma crítica à sociedade pós-feminista em que as mulheres acumularam funções e ficaram cada vez mais superficiais.

Li o livro com a intenção de conhecer melhor o universo das venusianas. Depois de “casais dupla sertaneja”, conversas “bacia hidrográfica” (que ainda não consegui imaginar como é de fato), “colocar iogurte em vasilha diferente pra não ‘lembrar’ que é iogurte” e etc, não alcancei o tal objetivo completamente, até porque ninguém nunca vai alcançá-lo. Só sei que ri bastante e agora sou ainda mais fascinado e louco por elas.


- O quê? Claro que mulheres são menos inteligentes que homens – Diz ele brincando com sua namorada.

- Que absurdo! Você não tem argumento cabível pra provar isso! – Respondeu ela, estudante de direito, provocando o parceiro.

- Querida, me diz aqui: Você já viu algum homem comprando roupa de abotoar atrás?

...


segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Modo Subjuntivo



Às dezessete horas, o sol já estava morno. O céu começava a se manchar de um laranjado-magenta que sinalizava a proximidade do crepúsculo. Um fim de tarde que encerrava, com chave de ouro, aquele dia ensolarado de poucas nuvens capaz de dar vida nova a qualquer um que parasse um segundo para deslumbrar essa dádiva. Como se alguém parasse.

Apesar da barulhenta cidade, da multidão de pessoas e carros e de todos os problemas que existem. Naquele dia, alguns pássaros ousaram cantar e as árvores estavam em flores. Era um cenário típico do mais romântico dos contos de fadas. Como se alguém notasse.

Ela estava absorta em seu livro. Apaixonada pela filosofia clássica, se perdia platonicamente no seu mundo das idéias. Mesmo com toda bagunça e desordem, sublime e alheia, Minela estava completamente envolta em sua leitura. Sentada na praça principal daquela cidade tão importante, quase na posição de Lotus. Sentia, ou pensava sentir, uma certa repulsa por todos aqueles que passaram, em suas vidas insignificantes, mesquinhas e pequenas.

Ele era fruto do caos, Herbert, um entregador. Saindo da transportadora e indo em direção à moto, ele atravessa a praça com sete ou oito caixas na mão e alguns papeis na outra. Pensando em qual seria o melhor caminho para pegar, como evitar aquele terrível tráfego da região central, sair do olho do furação do jeito menos ruim. Sentia o estômago roncar, não havia almoçado por falta de tempo. Andava intrigado com como aquele trabalho era incrivelmente chato e em como ainda faltava tanto tempo para a sexta-feira: era quinta. Mas ainda sim, preferia ser do jeito que era do que a ser um “engomadinho” qualquer.

Ele passa em frente a ela. Sem mais, segue em frente e nem tem porque olhar para os lados. Já está a cerca de dois metros dela, quando volta. Para em frente ao banco, coloca as coisas que carregava ao lado dela.

Se dissesse "oi", provavelmente ela responderia "oi?", distraída com seu livro, ele repetiria "oi!" e os dois ririam daquela confusão tola. Talvez ele gostasse da voz dela e perguntasse o que lia e ela, por educação, claro, responderia perguntando se ele já havia lido. Com a possível negativa debochada, ela seria tentada a lhe convencer do quão importante é a filosofia e ele a ouviria só pelo prazer das sílabas saindo naquele timbre, frequência e altura tão próprios. Depois talvez ele até gostasse do assunto e lembrasse do livro que lera quando pequeno, sobre uma menina que recebia um estranho curso de filosofia pelos correios. Ele bem que pediria mais indicações e talvez ela aceitasse dar. Talvez até marcassem de se rever para que ela descobrisse como é "a emocionante vida sobre duas rodas". Quem sabe eles se dessem impressionantemente bem e nunca mais conseguissem conceber um dia sem a presença um do outro?

Numa quinta-feira, às 17:12, a uma pessoa totalmente desconhecida, em plena a praça principal? Herbert, evidentemente, amarra os tênis e continua seu caminho até a moto. Como se ele fosse mesmo dizer oi

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Sapatos de couro





- Nada não, só um resfriado.

...

Terça-feira, sete e trinta: Douglas acorda mecanicamente. Toma seu banho e veste-se exatamente como na segunda: Camisa social azul clara de mangas compridas, calças e paletó cinza escuro com risca de giz, gravata azul marinho com listras brancas guardada no bolso e sapato de couro negro italianos. Esses sapatos eram os melhores do mundo, já dizia seu falecido pai. Tão bons que não se podia experimentá-los antes de comprar. Segundo o velho artesão Rizzon, “uma vez que um pé entra no sapato e estica o couro, ele nunca mais volta a ser o mesmo”. Todas as peças de roupa estavam impecavelmente bem passadas e com caimento perfeito, ele era um retrato de solidez e confiabilidade. Dizem que não há nada melhor para um sub-gerente de processos executivos.

O café da manhã, inexoravelmente, era duas xícaras de café expresso com três gotas de adoçante e quatro torradas médias com uma camada fina de manteiga sem sal. Na última torrada, prazerosamente, permitia-se que a camada de manteiga fosse médio-fina e via naquele ato furtivo sua única alegria matinal. Lava todos os utensílios utilizados e, antes de sair, confere três vezes se cada janela e porta estão trancadas, muito embora more no 15º andar de um prédio em Nova Lima.

Antes de apertar o elevador, confere, em quatro passos, se não esquecia algo: Chaves da casa, chaves do carro, pasta e carteira. Mais uma vez: Chaves da casa, chaves do carro, pasta e carteira... Chaves da casa, chaves do carro, pasta e carteira. Agora sim. Desce até a garagem, abre o Toyota e dirigi-se para o centro.

Douglas detestava gravatas. Sentia como se estivesse sendo sufocado por algum assassino psicopata frio e silencioso. Deixava para vesti-las só quando estava dentro do elevador do escritório entre os 5º e 13º andares. Aquilo era um misto de sensações: sentia-se ousado por evitar o inimigo linguarudo até o fim e também sentia-se como um burro que caminhava conscientemente para o matadouro todos os dias.

Quando terminou de estacionar eram oito horas e três minutos, bastava atravessar a rua, muito embora só devesse bater o cartão daqui há cinqüenta e seis minutos e vinte segundos. Subiu do estacionamento e viu aquele mundo de sempre. Pessoas correndo sem olhar para os lados, celulares na orelha e milhões tons entre o cinza e o cinza escuro. Tão familiar.

Bastou um único passo, que azar, um relaxamento instantâneo e pronto! Um Office boy esbarra em Douglas que se desequilibra e, aos tropeços, vai em direção há uma enorme poça na sarjeta. Os sapatos. Numa manobra bizarra, sobrevoando carrinhos de bebê e apoiando-se em máquinas de construção, ele se desvia da poça. Desvia-se da poça e pisa, com os dois pés, no cimento fresco. Pobres sapatos italianos.

Douglas se contém, sente a fúria sozinho, não é culpa de ninguém ali, o office boy desastrado já estava longe. Para sua sorte, ou do destino, ao lado do prédio onde trabalhava havia uma renomada loja de roupas e sapatos e uma simpática atendente.

Ele entrou e confirmou, logo após o “bom dia” da mulher, o que acabara de pensar, sim, muito simpática. Não que fosse feia, desajeitada ou qualquer coisa do tipo, mas não dizia que era bonita ou atraente, era uma adorável e simpática atendente. Talita. Sem “H” ou qualquer outra firula, normal, morno.

- Outra Gucci Azul Royal, senhor Rizzon?

- Não Talita, hoje procuro por sapatos. Sapatos de couro negro italianos.

- Ah sim, claro. Ótima escolha, senhor Rizzon. Pegarei nossos modelos, um minuto.

E se foi ela sorrindo. Douglas não sabia o que, mas tinha alguma coisa intrigante naquela mulher. Devia ser o sorriso, sincero, onde já se viu uma coisa dessas? Pensava nisso e em outras dezenas de coisas do escritório, estava quase na vertigem da raiva e ainda nem havia colocado a maldita gravata, quando ouviu a música da loja. Legião Urbana. Era uma playlist completa dos brasilienses: Dia perfeito, Se fiquei esperando meu amor passar, Hoje a noite não tem luar, Que país é esse, Pais e Filhos, Quase sem querer. As lembranças da juventude borbulhavam na cabeça do velho, de 28 anos, Douglas Rizzon.

Mas foi numa música triste que ele se sentiu mais feliz. Quando percebeu que podia ser bom não ter quem cure a saudade que ele sentia de tudo que ainda não havia visto. Seus olhos se recaíram sobre uma blusa floral lilás. “Lilás, Douglas?” Ele pensou... sim, lilás.

- Aqui estão nossos mais novos modelos, senhor Rizzon.- Disse a atendente, ao voltar, e, finalmente, Douglas entendeu a graça que todos no ginásio viam em seu nome.

- Talita, acho vou ficar com esse. Posso lhe fazer duas perguntas?

Até onde ele seguiria com aquilo?

- Claro, senhor Rizzon.

- Você pode me chamar só de Douglas, por favor?

Ela enrubesceu e murmurou um “pois não” sem jeito.

- E... Vou para Vitória, quer ir comigo?

O rosto de Talita e seu uniforme vermelho pareciam ter a mesma cor.

- Como assim? Quando? – Ela perguntou confusa.

- Agora. Pegue aquela blusa floral para mim e venha...

- Não. – Respondeu firme.

Douglas engoliu seco. Não? Mas ele não podia deixar a poeira baixar, o ânimo passar, a adrenalina se diluir no sangue. Olhou para ela mais um segundo, continuou imutável. Ele pegou a camisa sozinho e seguiu pela rua.

- Me espera! – gritou ela da porta e saiu correndo – Você precisa ser mais persistente!

Sem sentido algum, rumaram para a estação de trem e pegaram o primeiro para o Espírito Santo. Dez horas de viagem, dois estranhos se tornaram grandes íntimos e, por coincidência ou conveniência, o filme preferido de ambos era Before Sunrise. Chegando no litoral, alugaram um carro barato e andaram por toda a cidade. Os pontos turísticos, as ruelas fora dos guias, centros históricos, a praia.

Quando anoiteceu, nenhum dos dois tinha mais dinheiro.

- Bom, ainda bem que compramos a passagem de ida e volta – Brincou Talita.

- É... Mas não temos lugar para dormir.

- Lugar temos, o carro. Mas você estava pensando em dormir?

Me abstenho de descrições mais detalhistas. Em vitória, Douglas e Talita viveram um universo paralelo momentâneo, um estalo bucólico em algum lugar entre uma segunda e uma quarta-feira.

No dia seguinte, Douglas perdeu a hora e saiu de casa, às pressas, oito e quarenta, seu café da manhã foi um fast food que lhe caiu peculiarmente mal, o trânsito estava um inferno, seu pneu furou e quando chegou ao prédio do escritório, a loja ao lado estava fechada para reformas. Subiu treze andares, se esqueceu da gravata. Parou, sentou-se no lugar de sempre e olhou para baixo: ainda vestia os sapatos italianos sujos de cimento. Cutucou o colega do lado:

- Cara, sabe o que aconteceu ontem?

- Sei. Nada. Esse emprego ainda me mata. – respondeu apático.

- Não. Comigo!

- Uai, você não veio ontem? Por quê?

Douglas ficou espantado e até ressentido por um instante, “nem sentiram minha falta?”, mas logo percebeu que não era com ele o problema. As pessoas à volta é que nunca saíam de seus mundinhos sufocantes. Ele não estava mais sufocado e isso não tinha nada a ver com a gravata. Riu lembrando-se do seu pai e respondeu:

...

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O melhor dos dois



Quando eu era criança, sonhava com um lugar bom de estar. Cercado por algumas montanhas e com um clima bem agradável. De um tamanho que nem precisasse subir muito no céu para ver tudo pequeno, na verdade, o melhor seria se bastasse subir numa árvore e ver o fim da cidade lá de cima.

Seria bom andar na rua cumprimentando todo mundo como se fôssemos uma única e humilde família. Usar essa roupa que separo para as idas à padaria no domingo de manhã em qualquer dia ou situação. Um ponto no espaço onde sempre fosse domingo de manhã.

Um belo domingo de sol e brisa. Um vilarejo onde existissem menos casas do que macieiras, mangueiras, jabuticabeiras ou goiabeiras. Todas prontinhas, esperando algum casal para passar o dia todo sob suas sombras. Onde todo mundo pudesse ficar na rua até mais tarde. Bastassem 10 minutos na bicicleta para chegar a uma refrescante cachoeira depois da curva na estrada de terra.

Hoje em dia, sei que nunca conseguiria viver assim. Gosto de estar antenado com o mundo, saber o que está acontecendo a cada segundo. As coisas mais e menos importantes que a Internet me mostra. Ora se não é mágico também conversar com aquela pessoa querida a qualquer momento usando o tal do celular?

A vida frenética da boemia urbana. Os bares, festas, a night... Ser fuzilado pelo entretenimento. Ter uma casa bem confortável, uma bela TV na sala e um carrinho na garagem. Grande ou menor, que a casa fosse bem arquitetada e bonita. É bom ter um emprego digno e justo, mesmo dentro de um escritório. Por quê não?

Já ouvi dizer que ninguém pode ter tudo. Que pena! O ideal seria ter esses dois mundos juntos e em harmonia. Aliás, não quero tudo, quero só o melhor dos dois. Dentro desse imenso país de vasto litoral e com mil interiores. Cada um mais diverso, múltiplo, vivo e ambíguo que o outro, quem dera meu sonho também estivesse ali no meio.



Bem, eu sou feliz. Sou feliz porque, pelo menos para mim, existe esse lugar. Quão bom não seria se todo o mundo por dentro e por fora, enfim, ele todo, não fosse como esse interior do oeste das Minas Gerais: Luz.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O texto é meu e pronto

Eu estava sentado no balcão de um simples salão de festa quando ele me cumprimentou:


J. - Hey! Tudo bom?

M. – Eu te conheço?

J. - Sei lá. Você acabou de dizer “quando ele me cumprimentou”. Só estou seguindo as regras.

M. – Que maluquice é essa de se referir à narração do texto?

J. – Que maluquice é essa de escrever um texto onde você é narrador, personagem (até aí tudo bem) e autor ao mesmo tempo? Faltou à aula de Teoria da Literatura? Narrador e Autor são pessoas diferentes.

M. – Como eu posso ser o autor e escrever minha própria vida?

J. – Ora, não é nisso mesmo que você acredita, Senhor Livre-arbítrio-a-qualquer-custo? Enfim, meu nome é Juan (putz, você tá sem criatividade pra nomes hoje, hein?!) e vim aqui para lhe ajudar com as mulheres...

M. – Primeiro, quem disse que preciso de ajuda com mulheres? Segundo, já que esse texto é meu, vamos fazer dele alguma coisa mais útil.

J. – Mais ú... peraí, você disse útil? Ah, então tudo bem. Achei que havia dito melhor, já ia te perguntar o que era melhor que mulher... Texto mais útil como?

M. – Uai, é como o professor de Literatura diz... Um texto tem que carregar alguma discussão profunda debaixo dele... Suscitar uma boa reflexão...Sei lá... Discutir a própria Literatura e seus elementos constituintes... Ou alguma coisa mais sociológica do tipo: como existem pessoas machistas nesse mundo e sobre o feminismo oportunista de hoje em dia... Ou ainda poderia apresentar os conflitos psicológicos de uma geração de jovens ávidos por desafios, mas perdidos em suas próprias palavras inebriantes...

J. – Ah, claro, senta lá, Cláudia.. Não quer acrescentar uma crítica feroz ao jornalismo apático e mentiroso que se pressupõe objetivo caminhando sobre o bem e o mal, não? Por favor! Você acha mesmo que conseguiria fazer isso? Para ser bom escritor tem que ser bom leitor... Você leu, no máximo, uns 50 livros até hoje e deve ter prestado menos atenção neles do que em jornalzinho de ônibus... Mas por falar em crítica literária... você tem escrito muitos diálogos, né? Ta começando a ficar previsível...

M. – Ou posso estar começando a achar meu estilo!

J. - Diálogos são muito complicados de entender... Quem lê se perde...

M. – Qual é... Eu coloco a inicial de quem está falando antes da fala... e quase nunca tem mais que três personagens na mesma cena... Sem falar que a leitura fica mais dinâmica e aproxima mais o leitor da narrativa... Estou te falando, acho que essa é minha "estética literária"...

J. – Pelo bem do mundo, espero que não.... Me vê duas caipi-vodkas aí, chefe!

M. - ...

J. – O QUE É ISSO?!


Juan ficou estupefato com o corpo que viu atrás do balcão...


J. – E com o preço dessa caipi-vodka também! Mas você-narrador é quem manda... MEU DEUS, UM CORPO ATRÁS DO BALCÃO!? Olha, cuidado com esse tanto de conflitos nesse texto, você ainda tem que explicar o título, dar um desfecho que preste, o lance com as mulheres e agora esse corpo... isso vai ficar gigante, ninguém vai ler até o final....

M. – Ninguém nunca lê mesmo... E vamos parar com isso de “esse lance com as mulheres”.. que lance?

J. – Ora, você inventou um personagem todo despojado como eu, com o nome de Juan e nos colocou aqui, em um salão de dança cheio de gatinhas... Cara, todo mundo já percebeu que tudo isso não passa de uma embolação sem fim pra você escrever sobre essa tal fase “eu cansei de ser bonzinho” que você está passando, Mizaru...

M. – Juan, você nem me conhece, não sou tão clichê assim... Costumava ser, mas não sou mais...

J. – Tá tá... Escuta só A Verdade. Olha pra pista... Todas essas mulheres estão aqui para jogar... Tudo é um jogo... E, para elas, o vencedor tem que seguir quatro critérios muito simples. Você tem que ter Isenção [não se apegue a nenhuma delas], Pluralidade [Ora, todo mundo se cansa rápido... aproveita que o público tem memória curta e diversifique seu número de presas ao máximo], Clareza [Sem piadinhas racistas... estou falando aqui de ser claro, vai direto ao ponto, se precisar, chega beijando] e, claro, ser Correto [Quer dizer, um cara reto, nenhuma mulher gosta de pessoas tortas – em qualquer sentido – você tem quer ser sempre ereto nas suas ações].

M. – Parabéns, você é quem escreveu o Manual do Pegador?

J. – Percebi seu sarcasmo. Mas, pra ser sincero, aquilo é o maior plágio da história... Enfim, o que eu disse era na teoria, na prática eu fiz um sisteminha pá-pum: Look, check e get.

M. – Por quê em inglês?

J. – Porque fica mais cool e style... Em Português seria algo como Olhar, checar e pegar.

M. – Detesto quando pessoas dizem “seria algo como” antes de traduzir alguma coisa que é EXATAMENTE como ela diz e não “algo como”...

Juan não me deu atenção e só pediu para que eu o olhasse em ação. Virou-se para a primeira que viu. Colocou-a de costas para mim, para que eu pudesse o ver sobre os ombros dela. Juan a olhou nos olhos, deu-lhe uma bela apertada entre as pernas, fez um sinal de positivo para mim e tacou-lhe um beijo de cinema igual o tapa que levou logo de volta. Voltou massageando o rosto e me vendo gargalhar

J. – Buscar inspiração em Splish Splash do Roberto Carlos foi tenso.... E, pro seu governo, na música o beijo e o tapa não são como de cinema, mas sim no cinema. De qualquer forma, valeu a pena. Peguei, né? O que você está anotando? Que papel é esse?

M. – Um texto que estou escrevendo...

J. – Ah, o título... Não pergunto mais nada. Isso já está muito metalinguístico pro meu gosto... Se desse algum palpite, aposto que você me responderia “O texto é meu e pronto”... Mas e aí? O que achou do meu método?

M. – Péssimo, não é pra mim. Cara, eu procuro uma coisa diferente. Uma relação baseada na cumplicidade, na confiança. Onde, juntos, duas pessoas possam compartilhar momentos legais e construir coisas bacanas... HEY, ACORDA!

J. – Desculpa... Peguei no sono aqui... Não eu, claro, mas você sabe que todo mundo acha isso um saco, né? ... Ow... Me larga... Que eu fiz? Qual é? Mizaru, me ajuda aqui... ow....

Só pude ver Juan sendo levado pro cantão por um brutamontes gigante que, a supor por como a mulher que Juan tinha acabado de beijar chorava copiosamente, era o esposo chifrudo. Ainda consegui ouvir meu “amigo” dizer uma coisa:

J. – Mizaru, a morta... A morta do balcão!!!

De repente, a mulher do outro lado do balcão levanta e sai resmungando: Meu Deus, tenho que parar de beber....


Vou aproveitar o momento pra avisar: Quem quiser deixar sugestões de temas ou simplesmente frases pra eu escrever sobre semana que vem... O blog nem tá tão bombante, com mil comentários... aproveita, se vc colocar, provavelmente é a sua que vou escolher...kkkkk... Mas não é garantido... enfim, ACEITO SUGESTÕES!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Anel de Polígono


As cortinas se abrem.

Não há nada no palco além de uma cadeira no centro, sob a luz do holofote. Entra o protagonista.

A. (angustiado) – Se estão aqui para ouvir algo novo, levantem-se e garanto que a linda jovem na bilheteria lhes devolverá o que gastaram. Sou Adam e o dilema que enfrento é igual ao que muitos, não digo todos porque me acusariam de arrogante, já viveram. Talvez, exceto os sortudos, talvez.

(senta-se na cadeira)

A. – Estou prestes a me casar ou a me matar, sem trocadilhos. Viviane é uma mulher linda e generosa. Tudo está marcado para semana que vem, na sexta. Porém, há o conflito, a complicação, claro, porque sempre há: a irmã. Quantas vezes mesmo eu já ouvi essa história? Amigos... conhecidos.... desconhecidos.... meu próprio pai passou por isso. Não adianta, a trama ciclicamente volta e nós caímos novamente. Estou exausto!

(Um feixe de luz incide sobre o canto direito do palco e aumenta gradativamente até o máximo. Trilha gregoriana: entra Viviane)

(Assim que sua silhueta começa a ser vista, risadas de deboche ecoam vindo de trás do palco)

V. – Não ria de mim, sua psicótica!

(A risada não para e, um pouco abalada e envergonhada, Viviane segue entrando)

V. – Meu amor, ouvi que estava exausto. Olhe, tome um copo de água.

M. (Do fundo do palco) Sua submissão é desprezível!

A. – Cheguei a citar que as duas irmãs estão aqui? Viviane e Mônica. O que as liga é o parentesco sanguínea e só.

V. – Meu amor é incondicional!

M. (Do fundo do palco) Eu não vim até aqui para falar contigo, lesma. Vim tomar o que é meu.

V. – Pois bem, vá embora. Não há nada que lhe pertença aqui.

M. (Do fundo do palco) - Não foi o que pareceu ontem ao telefone, não é querido?

V.- Cale a boca, ele me ama, tudo está marcado! Você não fará isso de novo comigo, Mônica! Ele sequer lhe conhece!

M. (Do fundo do palco) – Ora, essa é minha vantagem: o mistério. Você é como um entediante documentário de 6 horas sobre índios americanos, eu sou um ingresso para a montanha russa.

V. – Isso para mim é um elogio, um documentário certamente é muito mais útil do que um passeio no parque.

M. (Do fundo do palco) Claro que seria um elogio para você! Além de tudo, sempre foi lerda, sonsa. Não estou falando de escola, estou falando de viver! Deixe-me ser mais clara. Você: tédio. Eu: descobertas. Exatamente o que você mais gosta, como me disse ontem ao telefone, não é “Charlie”... (risos).

A.- Pare de dizer o que não deve, Mônica! Apenas palavras não podem abalar o que sinto! Você acha mesmo que eu trocaria todos os bons momentos que eu vivi com sua irmã por uma ou duas conversas ao telefone? Se continuei naquilo contigo, foi por falta de força, mas não se repetirá. Nunca vi seu rosto e você já pode sair daqui porque espero nunca vê-lo!

M. (Do fundo do palco) - Quem disse que vim lhe oferecer palavras, “Charlie”? Não faça esse joginho hipócrita agora... Hoje mesmo conversamos e sua curiosidade estava, digamos, peculiarmente alta. Você nunca me viu, mas já sonhou mais comigo do que com ela...

V.- Sua pervertida!

M. (Do fundo do palco) - Mas eu compreendo os “bons momentos” que passaram juntos... posso imaginar a clássica cena de você dormindo sobre o colo dela debaixo de uma arvora, dormindo sobre o colo da imaculada num banco da praça, cochilando nela no sofá de casa, dormindo com ela ao lado da lareira... dormindo... dormindo... é tudo que ela pode te oferecer... o tédio, o sono....

V.- Qual o problema de dividir bons momentos com quem se ama? Dormir junto é um sinal de confiança...

M.- Bem, asseguro que comigo você não dormirá, “Charlie”

V.- Sórdida! Pare de chamar meu noivo assim, o nome dele é Alam! Melhor, pare de se dirigir a ele e vá embora!

M. (Do fundo do palco)- Sórdida? Pra quem? Falsa! Nessa existência temos que fazer de tudo para sermos felizes. É como se tivéssemos ganhado ingressos grátis no maior parque de diversões do universo e você aí se resguardando para sei-lá-o-que. Desde que não interfira na vida de ninguém, aproveite a sua! E, a propósito, foi ele mesmo quem escolheu o apelido...

A.- Deixe-me, pelo menos saber como você é...

(sobe uma luz meio tom enquanto a silhueta de Mônica começa a surgir, lentamente. Sem trilha)

M. (quase sussurro, indo em direção a Alam) – Engraçado perguntar como sou porque ninguém sabe exatamente. Não me refiro a nenhum sentido psicológico-depressivo, mas esses últimos 5 anos na França realmente me mudaram. Nem minha família me viu, vim do hotel diretamente até você. - (parada há 10cm da nuca do protagonista, por trás, na penumbra) Ruiva? Loira? Mulata? Alta? Olhos claros? Escuros? Como será que eu sou?

A. (sarcático) – Não me diga que você pode ser o que eu quiser?

(A luz se apaga)

M (sussurro se afastando) Não, querido. Eu sou o que você não conhece...

A. - ... Que faço? (afasta-se das duas e aproxima-se do público) É como se fosse um jogo de luz e sombra. A voz da Viviane me conforta, da Mônica me desperta. Com minha noiva sei que terei uma vida boa, tranqüila e longa. Com Mônica, existe a possibilidade que eu tenha muito mais, mas é só possibilidade. É meu corpo contra minha alma. Minha razão contra meus instintos. Não estou aqui para que me julguem, já me basta o tribunal da minha própria consciência, mas quero que me ouçam. Tenho que escolher para qual darei, enfim, esse Anel de Polígono. Jóia de família, esse rubi de treze faces encravado no ouro 24 quilates, foi esculpido por meu bisavô. Esse anel é como um ciclo e é aí aqui está sua importância.

V.- Eu não posso acreditar que esteja em dúvida, meu amor! Eu lhe ofereço tudo o que pedir! (se ajoelha). Serviços domésticos, trabalhos, sacrifícios... Tudo, TUDO!

(Adam começa a caminhar em direção ao lado esquerdo do palco, onde Mônica se esconde, com o anel em mãos. Viviane rasteja atrás)

V. – Nossos planos! A casa na montanha! Nossos filhos! Não arruíne tudo, Adam! Quer que eu corte o cabelo? Pinte? Faça alguma cirurgia? Por favor, querido, minha viagem nesse lugar não tem sentido sem você!

(Adam não vacila e segue, lentamente, em direção à Mônica)

M. – Poupe suas lágrimas de cristal, irmãzinha. Enxugue esses olhinhos azuis e recomponha seus cachos loiros. Eu desisto.

A. (desespero) e V. (confusa) – O quê?

M.- Em todo bem há mal. Quanto mais luz, mais sombra. Todos os seres tem seus momentos de maldade e de bondade. Talvez eu queira simplesmente ser benevolente, talvez esteja envergonhada por sua decadência obcessiva e a facilidade com que conquistei seu precioso tesouro ou talvez eu só pense que esse joguinho fique mais interessante assim. Pense o que quiser, fique com ele agora. No fim, todos eles vem para mim, como sempre foi e sempre será, maninha. Você pode ter a vantagem de começar, mas depois de desfrutarem uma curta travessia contigo pelos campos da tranqüilidade e do cotidiano, eles sempre me procuram ou eu os encontro, para que terminem no meu desconhecido leito. Afinal, tudo que é quente esfria.

Mônica se retira.

Fecham-se as cortinas.