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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Sapatos de couro





- Nada não, só um resfriado.

...

Terça-feira, sete e trinta: Douglas acorda mecanicamente. Toma seu banho e veste-se exatamente como na segunda: Camisa social azul clara de mangas compridas, calças e paletó cinza escuro com risca de giz, gravata azul marinho com listras brancas guardada no bolso e sapato de couro negro italianos. Esses sapatos eram os melhores do mundo, já dizia seu falecido pai. Tão bons que não se podia experimentá-los antes de comprar. Segundo o velho artesão Rizzon, “uma vez que um pé entra no sapato e estica o couro, ele nunca mais volta a ser o mesmo”. Todas as peças de roupa estavam impecavelmente bem passadas e com caimento perfeito, ele era um retrato de solidez e confiabilidade. Dizem que não há nada melhor para um sub-gerente de processos executivos.

O café da manhã, inexoravelmente, era duas xícaras de café expresso com três gotas de adoçante e quatro torradas médias com uma camada fina de manteiga sem sal. Na última torrada, prazerosamente, permitia-se que a camada de manteiga fosse médio-fina e via naquele ato furtivo sua única alegria matinal. Lava todos os utensílios utilizados e, antes de sair, confere três vezes se cada janela e porta estão trancadas, muito embora more no 15º andar de um prédio em Nova Lima.

Antes de apertar o elevador, confere, em quatro passos, se não esquecia algo: Chaves da casa, chaves do carro, pasta e carteira. Mais uma vez: Chaves da casa, chaves do carro, pasta e carteira... Chaves da casa, chaves do carro, pasta e carteira. Agora sim. Desce até a garagem, abre o Toyota e dirigi-se para o centro.

Douglas detestava gravatas. Sentia como se estivesse sendo sufocado por algum assassino psicopata frio e silencioso. Deixava para vesti-las só quando estava dentro do elevador do escritório entre os 5º e 13º andares. Aquilo era um misto de sensações: sentia-se ousado por evitar o inimigo linguarudo até o fim e também sentia-se como um burro que caminhava conscientemente para o matadouro todos os dias.

Quando terminou de estacionar eram oito horas e três minutos, bastava atravessar a rua, muito embora só devesse bater o cartão daqui há cinqüenta e seis minutos e vinte segundos. Subiu do estacionamento e viu aquele mundo de sempre. Pessoas correndo sem olhar para os lados, celulares na orelha e milhões tons entre o cinza e o cinza escuro. Tão familiar.

Bastou um único passo, que azar, um relaxamento instantâneo e pronto! Um Office boy esbarra em Douglas que se desequilibra e, aos tropeços, vai em direção há uma enorme poça na sarjeta. Os sapatos. Numa manobra bizarra, sobrevoando carrinhos de bebê e apoiando-se em máquinas de construção, ele se desvia da poça. Desvia-se da poça e pisa, com os dois pés, no cimento fresco. Pobres sapatos italianos.

Douglas se contém, sente a fúria sozinho, não é culpa de ninguém ali, o office boy desastrado já estava longe. Para sua sorte, ou do destino, ao lado do prédio onde trabalhava havia uma renomada loja de roupas e sapatos e uma simpática atendente.

Ele entrou e confirmou, logo após o “bom dia” da mulher, o que acabara de pensar, sim, muito simpática. Não que fosse feia, desajeitada ou qualquer coisa do tipo, mas não dizia que era bonita ou atraente, era uma adorável e simpática atendente. Talita. Sem “H” ou qualquer outra firula, normal, morno.

- Outra Gucci Azul Royal, senhor Rizzon?

- Não Talita, hoje procuro por sapatos. Sapatos de couro negro italianos.

- Ah sim, claro. Ótima escolha, senhor Rizzon. Pegarei nossos modelos, um minuto.

E se foi ela sorrindo. Douglas não sabia o que, mas tinha alguma coisa intrigante naquela mulher. Devia ser o sorriso, sincero, onde já se viu uma coisa dessas? Pensava nisso e em outras dezenas de coisas do escritório, estava quase na vertigem da raiva e ainda nem havia colocado a maldita gravata, quando ouviu a música da loja. Legião Urbana. Era uma playlist completa dos brasilienses: Dia perfeito, Se fiquei esperando meu amor passar, Hoje a noite não tem luar, Que país é esse, Pais e Filhos, Quase sem querer. As lembranças da juventude borbulhavam na cabeça do velho, de 28 anos, Douglas Rizzon.

Mas foi numa música triste que ele se sentiu mais feliz. Quando percebeu que podia ser bom não ter quem cure a saudade que ele sentia de tudo que ainda não havia visto. Seus olhos se recaíram sobre uma blusa floral lilás. “Lilás, Douglas?” Ele pensou... sim, lilás.

- Aqui estão nossos mais novos modelos, senhor Rizzon.- Disse a atendente, ao voltar, e, finalmente, Douglas entendeu a graça que todos no ginásio viam em seu nome.

- Talita, acho vou ficar com esse. Posso lhe fazer duas perguntas?

Até onde ele seguiria com aquilo?

- Claro, senhor Rizzon.

- Você pode me chamar só de Douglas, por favor?

Ela enrubesceu e murmurou um “pois não” sem jeito.

- E... Vou para Vitória, quer ir comigo?

O rosto de Talita e seu uniforme vermelho pareciam ter a mesma cor.

- Como assim? Quando? – Ela perguntou confusa.

- Agora. Pegue aquela blusa floral para mim e venha...

- Não. – Respondeu firme.

Douglas engoliu seco. Não? Mas ele não podia deixar a poeira baixar, o ânimo passar, a adrenalina se diluir no sangue. Olhou para ela mais um segundo, continuou imutável. Ele pegou a camisa sozinho e seguiu pela rua.

- Me espera! – gritou ela da porta e saiu correndo – Você precisa ser mais persistente!

Sem sentido algum, rumaram para a estação de trem e pegaram o primeiro para o Espírito Santo. Dez horas de viagem, dois estranhos se tornaram grandes íntimos e, por coincidência ou conveniência, o filme preferido de ambos era Before Sunrise. Chegando no litoral, alugaram um carro barato e andaram por toda a cidade. Os pontos turísticos, as ruelas fora dos guias, centros históricos, a praia.

Quando anoiteceu, nenhum dos dois tinha mais dinheiro.

- Bom, ainda bem que compramos a passagem de ida e volta – Brincou Talita.

- É... Mas não temos lugar para dormir.

- Lugar temos, o carro. Mas você estava pensando em dormir?

Me abstenho de descrições mais detalhistas. Em vitória, Douglas e Talita viveram um universo paralelo momentâneo, um estalo bucólico em algum lugar entre uma segunda e uma quarta-feira.

No dia seguinte, Douglas perdeu a hora e saiu de casa, às pressas, oito e quarenta, seu café da manhã foi um fast food que lhe caiu peculiarmente mal, o trânsito estava um inferno, seu pneu furou e quando chegou ao prédio do escritório, a loja ao lado estava fechada para reformas. Subiu treze andares, se esqueceu da gravata. Parou, sentou-se no lugar de sempre e olhou para baixo: ainda vestia os sapatos italianos sujos de cimento. Cutucou o colega do lado:

- Cara, sabe o que aconteceu ontem?

- Sei. Nada. Esse emprego ainda me mata. – respondeu apático.

- Não. Comigo!

- Uai, você não veio ontem? Por quê?

Douglas ficou espantado e até ressentido por um instante, “nem sentiram minha falta?”, mas logo percebeu que não era com ele o problema. As pessoas à volta é que nunca saíam de seus mundinhos sufocantes. Ele não estava mais sufocado e isso não tinha nada a ver com a gravata. Riu lembrando-se do seu pai e respondeu:

...

6 comentários:

Ludmylla disse...

Adorei o texto! Interessante a idéia de dar uma escapada do cotidiano... sempre faz bem! :)

Nathália disse...

Bom, tenho consideracoes a fazer:
1- o Douglas me pareceu muito atraente indo para o trabalho. Terno risca de giz? uau! ahhah

2- quando ele falou: "mas voce estava pensando em dormir?", eu pensei que ele estava sugerindo algo como assistir o sol nascer. Ate que voce falou que nao ia contar mais detalhes, UHAHAHAHA. O mente poluida!!

3- Eu gosto de gravatas :D

4- o que eh "inexoravel"? uauhahua

5- outro bom texto!

6- criei um blog novo. praesquerda.blogspot.com :)

beeijo Mizaru!

Emanuelle Najjar disse...

Eu juro que me senti sufocada com a descrição do mundinho do Douglas, desde a roupa até o café da manhã, com a alegria matinal de uma camada pouco maior da manteiga.

E que virada ele deu de repente, e se dar conta do que acontece, do que ele mesmo passava de se sentir sufocado e preso em seu próprio mundo. Deve ter sido um choque e tanto de realidade.

Definitivamente não tinha nada a ver com a gravata. Excelente texto.

Thais disse...

hehhe achei mto legal a descrição do mundo do Douglas no início. Você realmente conseguiu mostrar o mundo metódico e sufocante dele. Tenho só uma ponderação (que eu te conto depois hehe). Mas gostei mto!

bjo

Alim disse...

Boua, Tiennin...
vai colecionando esses "papéis avulsos", e qdo der na telha, publica um livro, vai ser massa!!

Abrass...

Jessie. disse...

Ennio, tenho que tirar um momento para falar que estou de cara do quanto você escreve bem. Não que eu não tivesse percebido isso antes, mas está cada dia melhor.
O texto está impecável. A descrição no começo foi formidável, e a história foi construída perfeitamente. Logo depois de algo tirar ele do padrão, a vontade de sair ainda mais. E os efeitos disso na vida dele. Ótimo.
E nem vou comentar que você citou o trecho mais perfeito das músicas do Legião e o filme mais lindo.
Parabéns! Mesmo.