BlogBlogs.Com.Br

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Livro de mulherzinha que nada!

Pelo menos, não SÓ de mulherzinha.

Imagine comigo: Festa de fim de ano no trabalho. Os colegas todos reunidos num estranho ambiente de “descontração, mas nem tanto”. Alguns salgadinhos e nenhuma bebida alcoólica. Aquele típico amigo-oculto em que sempre se corre o grande risco de tirar alguém que você, no máximo, cumprimenta levantando as sobrancelhas durante o ano todo.

- Gente, gente...Calma, vamos começar a brincadeira – Diz o chefe da redação. Que, claro, começa. – Meu amigo-oculto é...

Depois de algum suspense e de um ou outra interna do trabalho, descobrimos o felizardo: eu. Como de costume, deixo meu prato de bolo na mesa, vou até o meio da roda, volto para colocar no prato a colher que ainda estava na minha boca, cumprimento o chefe, trocamos abraços e pego meu presente. Já ia deixar de lado – lembrando que a possibilidade de ganhar algo, no mínimo, inusitado, é alta nesse tipo de amigo-oculto – queria guardar pra abrir em casa. Mas meus colegas de redação e das ilhas de edição – pensando exatamente o mesmo que eu, claro – começaram o coro: “Abre! Abre! Abre!”.

Quando abri, senti uma mistura de “que presente engraçado!” com “isso é gozação com minha cara?” e um pouco de “sério que eu pareço precisar tanto de uma coisa assim?”. O dito cujo era um livro chamado Mulheres, por que será que elas...? da escritora e jornalista mineira Leila Ferreira. Depois de algum tempo sem reação, me lembrei de onde estava, agradeci ao chefe, entreguei meu presente para uma colega e seguimos a brincadeira.


Na hora levei tudo muito na brincadeira. A sensação de “que presente engraçado!” e minha queda pelo humor non-sense me fizeram gostar muito da situação. Assim, não podia deixar de contar o caso para meus colegas. Um dos primeiros para quem contei, grande amigo nosso (sim, vocês o conhecem), comentou: - Hum. Um livro de mulherzinha! Estou na minha fase “livros de mulherzinha”. Depois quero emprestado.

Calma, antes de eu dizer com todas as letras o título desse post novamente, vamos à questão principal: O que é um “livro de mulherzinha?” Pra mim, livro de mulherzinha é algum fútil, bobo, que trata do universo feminino de um jeito infantilóide e romanesco [ponto] Sabrina e coisas do tipo. Se assim for, definitivamente, Leila Ferreira, nessa obra, não fez um livro assim.

Não vou fazer crítica literária aqui por dois motivos bem simples. Um, eu não tenho capacidade nem repertório suficiente para tal (bem que queria ter). E, além disso, esse livro me faz querer falar de outras coisas interessantes que não sua estrutura narrativa, as referências, o trabalho com a linguagem, as metáforas e etc. Fiquem aí com minhas impressões de leitura:

Quando peguei, depois do alvoroço da festa e de rir bastante da situação, no livro de capa verde e vermelha publicado pela editora globo, a primeira coisa que fiz foi dar uma olhada geral. Depois de folhear por dentro (mania que repito, por costume, desde que lia os livros da coleção Vagalume) e constatar, óbvio, que não havia gravuras, li o texto da contra-capa. Abri, li a orelha do começo e, na orelha do fim, vi a foto da escritora.

Leila está posando de pé, enquadrada quase de corpo todo (corte abaixo do joelho), calças jeans, um casaco fino azul marinho e uma simples blusa branca por baixo. De braços cruzados e sorriso aberto, ostenta cabelos ruivos-escuros curtos num corte moderno e uma maquiagem leve. Se foi pensado ou não, vai saber, mas essa foto é o resumo perfeito da obra: jovial, descontraída, irreverente e agradável.

Lendo o livro, me senti como que se estivesse sapeando a TV e parasse num programa a la Programa Livre só de mulheres. Se preferir, foi como se um grande grupo de meninas, jovens, adultas e senhoras na “melhor idade” estivessem sentadas num bar conversando naturalmente. Eu era um mosquito voando desapercebido por elas. Enquanto assistia, elas falavam abertamente.

Eu era o único homem no meio daquele tanto de mulher batendo papo e contando causos, uma experiência hilária! O único?! Minto. Durante todo o livro, se não me engano, aparecem três outros homens com direito à fala: Um gay, um baiano que reclama não conseguir dar cinco (isso mesmo que você está pensando) e um pobre coitado de 25 anos que leva “o” pé na bunda porque gosta de roupão de seda e leite quente.

Já ouviram falar de livro que se lê de uma vez só? Pois esse é quase um da espécie. Abri para ler durante minha viagem de BH para Luz. Chegando aqui, parei, cumprimentei meus pais e voltei a ler até terminar. Devorei as suas 242 páginas em cerca de 7 horas: um livro que se lê (no meu caso) de duas vezes só.

O jeito que a autora escreve é fluente e te conduz como se tudo não passasse, com o perdão da repetição, de uma conversa distraída. Aparentemente, o livro foi construído com base em uma série de entrevistas. Mas a Leila Ferreira consegue driblar bem essa estrutura que poderia ser um gesso, ligando os depoimentos com “Fulana que é amiga de Cicrana...” “Beltrana concorda com a outra e emenda...” Claro que parte do mérito está também na edição dos casos que são muito engraçados.

Sem dúvida que a obra tem lá seus defeitos. Leila parece se dirigir para um público bem específico. As mulheres referidas na capa parecem ser hilariantemente consumistas, ultra-vaidosas, inseguras, perfeccionistas, ninfomaníacas, submissas e desesperadas. Em alguns momentos, raros, a narrativa chega a ficar um pouco saudosista e com uma pequena ponta de remorso, ou “culpa” por parte da própria autora (rs). Mas, do mesmo modo que o homem (rude, frio, esquecido, arrogante e objeto) é um estereotipo, acho que as mulheres de Leila também devem ser. Ninguém é exatamente o que está escrito ali, apesar de todos terem maior ou menor familiaridade com cada caso contado. A própria autora parece construir, no fundo, uma crítica à sociedade pós-feminista em que as mulheres acumularam funções e ficaram cada vez mais superficiais.

Li o livro com a intenção de conhecer melhor o universo das venusianas. Depois de “casais dupla sertaneja”, conversas “bacia hidrográfica” (que ainda não consegui imaginar como é de fato), “colocar iogurte em vasilha diferente pra não ‘lembrar’ que é iogurte” e etc, não alcancei o tal objetivo completamente, até porque ninguém nunca vai alcançá-lo. Só sei que ri bastante e agora sou ainda mais fascinado e louco por elas.


- O quê? Claro que mulheres são menos inteligentes que homens – Diz ele brincando com sua namorada.

- Que absurdo! Você não tem argumento cabível pra provar isso! – Respondeu ela, estudante de direito, provocando o parceiro.

- Querida, me diz aqui: Você já viu algum homem comprando roupa de abotoar atrás?

...


4 comentários:

andreza disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
andreza disse...

Hahahaha. Eu via a cena! E juro que fiquei muito curiosa pra ler o livro. Principalmente agora que resolvi que antes de morrer PRE-CI-SO escrever um livro de auto ajuda.

Jessie. disse...

Como eu fiquei sabendo dessa história do livro no dia, me diverti mais ainda lendo seu texto. Ele nem me parece tão mulherzinha assim. E eu sou da opinião que ler esse tipo de livro é super válido. Nick Hornby avisa já na capa de Alta Fidelidade pros caras nunca deixarem mulheres lerem aquilo, se não entenderiam os homens - e lógico que eu li. Entender o sexo oposto é a curiosidade de todos. Quem sabe um dia a gente consiga.

Leila Ferreira disse...

Quando a gente escreve um livro, não sabe o que vai encontrar pela frente.
E aí dá aquele medo enorme de ter dito muitas bobagens, de ter se exposto
em excesso, de não ser entendida (por falta de competência pra se
fazer entender), de ter sido ridícula - enfim, medo. Vale a pena correr
esse risco? Vale a pena fazer algo que nos tira tanto de nossa zona de
conforto e nos expõe tanto às intempéries? Quando li o que você escreveu
sobre meu livro, Ennio, tive certeza que sim. Que coisa boa (pra usar uma
expressão bem mineira) encontrar um texto tão gostoso e tão inteligente.
Que coisa gratificante ver que um homem - e um homem que deve ter
menos da metade da minha idade - durante algumas horas falou a mesma
língua que eu falo, interpretou com precisão e senso de humor esse novelo
de contradições que é a condição feminina e ainda foi capaz de sair desse
mergulho (ainda) mais apaixonado pel as mulheres.
Super obrigada pela crítica generosa, da qual prazerosamente me aproprio,
mesmo sem saber que mereço.
Beijos da Leila.